15 de setembro de 2010

FESTA DA IMPRESSÃO DAS CHAGAS DE SÃO FRANCISCO

São Francisco das Chagas
(altar mor da igreja da VOT - SP)

Francisco, "servo crucificado do Senhor crucificado"

Aproximando-se a festa da santíssima Cruz do mês de setembro, uma noite Frei Leão foi ao lugar e na hora habituais para dizer matinas com São Francisco. Quando, na cabeça da ponte, disse, como costumava, Domine, labia mea aperies, e São Francisco não respondeu, Frei Leão não voltou atrás, como São Francisco tinha mandado, mas com boa e santa intenção atravessou a ponte e entrou quietamente em sua cela.


Não o encontrando, pensou que ele estivesse em oração em algum lugar pelo bosque. Então saiu para fora e, devagarinho, à luz da lua, ia procurando-o pelo bosque. Finalmente, ouviu a voz de São Francisco e, aproximando-se, viu que ele estava de joelhos em oração, com o rosto e as mãos levantados para o céu e, com fervor de espírito dizia: “Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? Quem sou eu, vilíssimo verme e inútil servo teu?”. Repetia sempre essas mesmas palavras e não dizia nenhuma outra coisa. Por isso Frei Leão, muito admirado disso, levantou os olhos e olhou para o céu. Olhando assim, viu baixar do céu uma chama de fogo belíssima e esplendidíssima, que, descendo, pousou na cabeça de São Francisco. Ouvia que saía uma voz dessa chama, que falava com São Francisco. Mas Frei Leão não entendia as palavras. Vendo isso e achando-se indigno de estar tão perto daquele lugar santo onde estava aquela admirável aparição, e temendo ainda ofender São Francisco ou perturba-lo de sua consideração, se fosse ouvido por ele, voltou atrás quietinho e, estando de longe, esperava ver o fim. Olhando fixamente, viu São Francisco estender três vezes as mãos para a chama e, finalmente, depois de um longo espaço, viu a chama voltar para o céu. Então moveu-se segura e alegremente, afastando-se da visão e voltando para a sua cela.

Quando ele ia saindo tranqüilamente, São Francisco escutou-o pelo rumor dos pés sobre as folhas, e mandou que esperasse e não se movesse. Então Frei Leão, obediente, ficou parado esperou-o com tanto medo, que, como ele contou depois aos companheiros, naquela hora ele teria preferido que a terra o engolisse do que esperar São Francisco, que ele pensava estar perturbado contra ele, porque ele se guardava com a maior diligência de ofender a sua paternidade, para que, por sua culpa, São Francisco não o excluísse de sua companhia.


Quando chegou perto dele, São Francisco perguntou: “Quem és tu?”. E Frei Leão, todo trêmulo, disse: “Eu sou Frei Leão, meu pai”. São Francisco: “Por que vieste aqui, frei ovelhinha? Eu não te disse que não me fiques observando? Dize-me, por santa obediência, se tu viste ou ouviste alguma coisa?”. Frei Leão respondeu: “Pai, eu te ouvi falar e dizer muitas vezes: Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? Quem sou eu, verme vilíssimo e inútil servo teu?”Então, ajoelhando-se diante de São Francisco, Frei Leão deu a culpa pela desobediência que tinha praticado contra a sua ordem, e pediu perdão com muitas lágrimas. Depois, pediu-lhe humildemente que explicasse as palavras que tinha ouvido e que lhe contasse as que não tinha entendido.


Então, vendo São Francisco que Deus tinha revelado ou concedido a Frei Leão, por sua simplicidade e pureza, que ouvisse e visse algumas coisas, concordou em revelar-lhe e expor-lhe o que ele pedia, e disse assim: “Sabe, frei ovelhinha de Jesus Cristo, que quando eu dizia as palavras que ouviste estavam sendo mostrados a minha alma dois lumes: um da notícia e conhecimento de mim mesmo, o outro da notícia e conhecimento do Criador. Quando eu dizia: Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? eu estava em lume de contemplação, em que via o abismo da infinita bondade, sabedoria e poder de Deus. E quando eu dizia: Quem sou eu? estava em um lume de contemplação em que via a profundeza lamentável de minha vileza e miséria, e por isso dizia: Quem és tu, Senhor de infinita bondade, sabedoria e poder, que te dignas visitar a mim que sou um verme vil e abominável? Naquela chama que tu viste, estava Deus que, naquela forma, falava comigo como tinha falado antigamente com Moisés.

E entre outras coisas que me disse, pediu que eu lhe fizesse três dons, e eu respondi: Senhor meu, eu sou todo teu. Tu sabes bem que eu não tenho mais nada além da túnica, do cordão e dos panos das bragas, e mesmo essas três coisas são tuas. Então, que posso oferecer ou te dar a tua majestade?


Então Deus me disse: Procura no teu seio e me oferece o que encontrares. Eu procurei e achei uma bola de ouro, e a ofereci a Deus. E assim fiz três vezes, conforme Deus me mandou três vezes. Depois me ajoelhei três vezes, bendisse e agradeci a Deus, que me tinha dado o que oferecer. E logo que me foi dado entender que aquelas três ofertas significavam a santa obediência, a altíssima pobreza e a esplendidíssima castidade, que Deus, por sua graça, me concedeu observar tão perfeitamente que de nada me repreende minha consciência.

E como tu viste que eu punha a mão no seio e oferecia a Deus essas três virtudes, significadas por aquelas três bolas de ouro que Deus tinha posto em meu seio, assim me deu Deus virtudes em minha alma, que de todos os bens e de todas as graças que me concedeu por sua santíssima bondade, eu sempre o louvo e engrandeço com o coração e com a boca. Essas são as palavras que ouviste ao levantar três vezes as mãos, como viste.


No dia que vem antes da festa da santíssima Cruz do mês de setembro, estava São Francisco em oração secretamente na sua cela. Apareceu-lhe o Anjo de Deus e lhe disse da parte de Deus: “Eu te conforto e aconselho a te preparares e dispores humildemente com toda paciência para receber o que Deus te quiser dar e fazer em ti”. São Francisco respondeu: “Eu estou preparado para suportar pacientemente tudo que o meu Senhor quer me fazer”. Dito isso, o Anjo foi embora.

Chegou o dia seguinte, isto é, da santíssima Cruz, e São Francisco, de manhã, antes do dia, pôs-se em oração na frente da porta da sua cela, virando o rosto para o oriente, e orava desta forma: “Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças te peço que eu me faças antes de eu morrer: a primeira, que em vida eu sinta na minha alma e no meu corpo, quanto for possível, a dor que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima paixão. A segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele amor sem medidas de que tu, Filho de Deus, estavas incendiado para suportar, por querer, tamanha paixão por nós pecadores”.


E, estando longamente nessa oração, entendeu que Deus o escutaria e que, quanto fosse possível para uma oura criatura, tanto lhe seria concedido sentir aquelas coisas. Em breve, tendo São Francisco essa promessa, começou a contemplar com toda devoção a paixão de Cristo e a sua infinita caridade. E crescia tanto nele o fervor da devoção, que ele se transformava todo em Jesus, pelo amor e pela compaixão. E quando assim estava, inflamando-se nessa contemplação, naquela mesma manhã viu vir do céu um Serafim com seis asas resplandecentes e em fogo.


Esse Serafim, voando rapidamente aproximou-se de São Francisco de forma que ele podia discerni-lo, e conheceu claramente que tinha em si a imagem de um homem crucificado. E suas asas eram dispostas de maneira que duas asas estendiam-se sobre a cabeça, duas se abriam para voar e as outras duas cobriam todo o seu corpo. Vendo isso, São Francisco ficou fortemente espantado e ao mesmo tempo ficou cheio de alegria pelo gracioso aspecto de Cristo, que lhe aparecia tão familiarmente e o olhava tão graciosamente. Mas, por outro lado, vendo-o crucificado na cruz, tinha uma desmesurada dor de compaixão. Também se admirava muito de uma visão tão estupenda e incomum, sabendo bem que a enfermidade da paixão não combina com a imortalidade do espírito seráfico.


E, estando nessa admiração, foi-lhe revelado por aquele que lhe aparecia que, por divina providência, aquela visão lhe era demonstrada dessa forma para que ele entendesse que, não por martírio corporal mas por incêndio mental, ele devia ser todo transformado na expressa semelhança de Cristo crucificado.


Nessa aparição admirável todo o monte do Alverne parecia estar incendiado numa chama esplendisíssima, que resplandecia e iluminava todos os montes e vales ao redor, como se fosse o sol sobre a terra. Por isso os pastores que vigiavam naquela região, vendo o monte inflamado e tanta luz ao redor, ficaram com um medo enorme, como contaram depois aos frades, afirmando que aquela chama tinha durado sobre o monte Alverne por uma hora ou mais. De maneira semelhante, ao esplendor dessa luz, que resplandecia nos albergues da região pelas janelas, alguns almocreves que iam para a Romanha levantaram-se imediatamente, crendo que o sol se levantara, selaram e carregaram seus animais e, quando caminhavam, viram a luz cessar e levantar-se o sol material.


Nessa aparição seráfica, Cristo, que aparecia, contou a São Francisco algumas coisas secretas e altas, que São Francisco não quis revelar durante sua vida a ninguém, mas revelou depois de sua vida, como demonstramos adiante. E as palavras foram estas: “Sabes, disse Cristo, o que eu te fiz? Eu te dei os Estigmas que são os sinais da minha paixão, para que tu sejas o meu porta-bandeira. E, assim como no dia de minha morte desci ao limbo, e carreguei todas as almas que lá encontrei em virtude de meus Estigmas, assim te concedo que, cada ano, no dia da tua morte, possas ir ao purgatório e trazer todas as almas das tuas três Ordens, isto é, Menores, Irmãs e Continentes, e também dos outros que a ti forem muito devotos e que lá encontrares, em virtude dos teus Estigmas, e as leves para a glória do paraíso, para que sejas conforme a mim na morte, como és na vida”.




Quando desapareceu essa visão admirável, depois de um tempo e de uma conversação secreta, deixou no coração de São Francisco um ardor enorme e a chama do amor divino. E na sua carne deixou uma maravilhosa imagem e vestígio das paixões de Cristo. Daí começaram a aparecer imediatamente nas mãos e pés de São Francisco os sinais dos cravos, do jeito que ele tinha visto então no corpo de Jesus Cristo Crucificado, que lhe tinha aparecido na forma de Serafim. E assim pareciam suas mãos e pés pregados no meio com cravos, cujas cabeças estavam nas palmas das mãos e nas plantas dos pés fora da carne, e suas pontas saíam no dorso das mãos e dos pés, de maneira que pareciam entortados e rebatidos, de modo que entre a curvatura e o rebite, que saíam inteiros para fora da carne, podia-se colocar facilmente o dedo da mão, como em um anel. E as cabeças dos cravos eram redondas e pretas.


De maneira semelhante, no lado direito apareceu uma imagem de uma ferida de lança, não cicatrizada, vermelha e sangrenta que, mais tarde, muitas vezes soltava sangue do santo peito de Francisco e lhe ensangüentava a túnica e as bragas. Por isso os seus companheiros, antes que o soubessem por ele, percebendo que ele não descobria nem as mãos nem os pés, e que não podia pousar no chão as plantas dos pés, e também encontrando ensangüentadas a túnica e as bragas, quando as lavavam, compreenderam com certeza que ele tinha expressamente marcadas nas mãos nos pés e no peito, a imagem e semelhança de nosso Senhor Jesus Cristo crucificado.

E embora ele se esforçasse muito por esconder e ocultar aqueles sagrados estigmas gloriosos, tão claramente impressos em sua carne, e por outro lado vendo que mal podia esconder dos companheiros seus familiares, temendo publicar os segredos de Deus, ficou numa grande dúvida se devia ou não revelar a visão seráfica e a impressão dos sagrados Estigmas. Finalmente, impelido pela consciência, chamou alguns frades mais familiares seus e, propondo-lhes a dúvida com palavras gerais, sem contar o fato, pediu o seu conselho.


Entre esses frades havia um de grande santidade, que se chamava Frei Iluminato. Ele, verdadeiramente iluminado por Deus, compreendendo que São Francisco devia ter visto coisas maravilhosas, assim lhe respondeu: “Frei Francisco, sabe que não só por ti, mas também pelos outros Deus te mostra algumas vezes os seus sacramentos. Por isso tens que temer razoavelmente que, se mantiveres escondido o que Deus te mostrou para utilidade dos outros, sejas merecedor de repreensão”. Então São Francisco, movido por essa palavra, com grandíssimo temor contou-lhes todo o modo e a forma da sobredita visão, acrescentando que Cristo, que lhe havia aparecido, tinha dito certas coisas que ele não contaria nunca enquanto vivesse.


E, embora as chagas santíssimas, porque lhe tinham sido impressas por Cristo, lhe dessem uma enorme alegria ao coração, para a sua carne e para os seus sentimentos corporais eram uma dor intolerável. Por isso, forçado pela necessidade, ele escolheu Frei Leão, entre os outros mais simples e mais puro, a quem revelou tudo e deixava ver, tocar e enfaixar aquelas santas chagas com alguns retalhos de linho, para mitigar a dor e receber o sangue que saía e corria das ditas chagas. Nos tempos em que estava doente, ele deixava trocar essas bandagens com freqüência, até mesmo todos os dias, menos da quinta-feira à tarde até o sábado de manhã, pois nesse tempo ele não queria que fosse mitigada por nenhum remédio ou medicina humanos a paixão de Cristo, que ele carregava em seu corpo.


(Trecho do texto: Terceira consideração dos sagrados santos estigmas. Fioretti)

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